Evangelho - Lc 12,13-21


(Por Kayron Kaic)
“Deus lhe disse: ‘Louco! Ainda esta noite, pedirão de volta a tua vida. E para quem ficará o que tu acumulaste?’”
(Lucas 12,20)

De que te vale acumular tantos bens sobre a terra se o teu coração está vazio das coisas do céu? Nós, humanos que somos, temos a mania de tentar preencher-nos por meio das “coisas” e não de Deus. Eu sou tesoureiro de um grupo de Jovens, faço parte da legião de Maria, sou catequista em duas comunidades, faço parte da coordenação de um grupo de teatro católico, ajudo na preparação litúrgica em minha comunidade e procuro sempre estar solícito e disponível aos assuntos do Senhor; mas isto não é nada! É uma gota de água no oceano. Deus é o Tudo, dê-lhe TUDO!

“Nunca vi um caminhão de mudança atrás de um cortejo fúnebre”
(Papa Francisco)

Objetos, títulos, pessoas... nada disso levaremos quando o Onipotente chamar-nos, a única coisa que contará é tudo aquilo que fizemos para elevar Jesus. Não será esquecido o valor de nosso trabalho, aquele trabalho que fora ofertado sem esperar nada em troca; o trabalho doado com alegria, mesmo que com muita dificuldade; o trabalho feito somente para engrandecer o Altíssimo e Diviníssimo Pai. No evangelho de hoje um homem pede a Jesus que este diga a seu irmão para dividir com aquele a herança que seria dos dois, Jesus, porém o exorta, "Atenção! Tomai cuidado contra todo tipo de ganância, porque, mesmo que alguém tenha muitas coisas, a vida de um homem não consiste na abundancia de bens" (Lucas 12,15)
Desapegar daquilo que construímos é muito delicado, pois o resultado do que construímos é muito profundo, pois colocamos naquilo o amor, o esforço, a dedicação, o cuidado e o tempo. É devido a isso, também, que muitas pessoas acabam vivendo infelizes, pois buscaram o preenchimento nessas coisas "pequenas", que vão desde um emprego, um relacionamento, uma amizade, um carro ou uma infinidade de coisas que buscamos obter e que nelas colocamos o nosso amor, esforço e o que for possível para realizar; sendo que tais ações e sentimentos deveriam de ter sido colocados em Deus, que é o que de fato preenche.
Existem pessoas que lutam para obter algum bem, somente para vangloriar-se, ou até mesmo para ter o que contemplar. Uma vez na faculdade, uma colega minha deu exemplo de uma mulher que comprava várias vasilhas de plástico, "famosas" e de marca boa, e as eixava somente em cima do armário, não usava e nem tocava, ficava ali olhando e, provavelmente, pensando: Essas são as MINHAS vasilhas, não é todo mundo que tem!". Endeusar as coisas e as pessoas, é isso que acabamos fazendo as vezes, até sem perceber, Jesus usou no evangelho  um exemplo como o da vasilha: “A terra de um homem rico deu uma grande colheita. Ele pensava consigo mesmo: ‘O que vou fazer? Não tenho onde guardar minha colheita’. Então resolveu: ‘Já sei o que fazer! Vou derrubar meus celeiros e fazer maiores; neles vou guardar todo o meu trigo, junto com os meus bens. Então poderei dizer a mim mesmo: Meu caro, tu tens uma boa reserva para muitos anos. Descansa, come, bebe, aproveita!’(Lucas 12,16-19).
“A vida do homem não consiste na abundância de bens” (Lucas 12,15). Não é pecado querer ter uma vida tranquila, ou dar uma estabilidade financeira para si e para sua família, desde que a primazia de tudo seja Jesus. Participei de uma semana vocacional que se deu em um convento dos frades menores capuchinhos, e lá um jovem partilhou que tinha tudo que ele poderia almejar, emprego, estabilidade financeira, família, mas mesmo assim era incompleto. Ele continuou a dizer que suas ocupações acabaram por sufocar sua vocação, tudo aquilo que ele conquistou era muito bom, mas ele precisava seguir o chamado de Jesus em sua vida. Muitas vezes estamos assim, temos um emprego, uma família, ou estamos estudando aquilo que gostamos, mas há uma inquietude, uma vontade de se entregar mais, porém a incerteza, o medo acabam por matar este desejo.
Deus quer a nossa insegurança, pois quando estamos inseguros, procuramos algo que nos deixe seguro e isto só será encontrado no Pai de todo o poder. Uma vez fui confessar-me e o padre disse: Meu filho, até mesmo na certeza existe a dúvida, nunca estaremos certos sobre uma decisão em sua plenitude. A única certeza que tenho é a de que minha alma precisa ir largando tudo e ir se unindo com Jesus. Gosto muito de escrever poemas e mais uma vez vou usá-los como forma de ajuda para externar a essência do abandonar-se, segundo o que meu coração diz. Esta que deixo aqui escrita, eu a fiz em uma tarde no convento, durante a semana vocacional.

Vocacional II

Quando será plena a certeza?
Quando, se nela sempre há a dúvida?
Posso ouvir-te a me invocar?!
Posso sentir-vos se ocultar.

Paizinho, percebeis que ainda fraco eu sou?
Percebeis, paizinho, que criança eu sou?
Poderias me ocultar em vosso colo?!
Esconde-me em ti, eu imploro.

Assim como o altar preparado
E como as mãos do sacerdote,
Também minha alma anseia pelo corpo teu!

Agora rogo a ti, Mãezinha, para que, como um jardim,
Onde plantinhas intrusas nascem em meio à grama,
A Senhora posso retirar de mim aquilo que não pode ser meu.

“Os que lançam as sementes entre lágrimas, ceifarão com alegria” (Salmos 125, 5). Ir se esvaziando é um processo doloroso, porém é necessário. Tem um canção das Irmãs Clarissas Capuchinhas que diz: Não perca de vista o ponto de partida, não perca o sentido, não perca o amor, não perca o amado. É primordial em nossa vida estarmos com os olhos fixos em Cristo, ele é quem nos impulsionará a seguir em frente, por meio de seu sacrifício, e é sob a luz desta prova de amor que devemos dar a nossa, que sempre será mínima, comparada a essa infinitude. “Quem a tudo renuncia, tudo receberá” (São Francisco de Assis).

“Para chegar ao céu é preciso ter leveza. É preciso a gente ter coragem para se despojar dos excessos, dos ódios que a gente insiste em guardar, dos mortos que a gente não permitiu que fossem sepultados. Que a gente guarde para nunca mais ser aberto tudo aquilo que na nossa vida não valeu a pena, que sirva apenas como aprendizado, que nos faça olhar para o alto”
(Padre Fábio de Melo)

Amados Irmãos, como diz a Santa e doutora da igreja, Catarina de Sena, é preciso não desatar, mas cortar os laços com o que é mundano. Que a Maria Santíssima nos auxilie a dizer sempre sim ao chamado de Deus e a não ter medo de se lançar no amor de Deus. Se estiver em frente ao abismo, lança-te, irmão. Jesus te ungiu, agora vá! Jesus doce, Jesus amor. Paz e Bem!

Me chamaste a desposar uma aliança nupcial
Convidaste a entregar-me deixando tudo para trás
Queres partilhar comigo a pobreza do presépio
A pureza virginal e a obediência da cruz

E eu te seguirei senhor, meu dono
Meu esposo, meu irmão, meu doce senhor Jesus.

Me chamaste a desposar da glória terrenal
E a me libertar das coisas e de toda vaidade
Queres que a minha vida seja oferta em holocausto
Entregue por completo a tua santa vontade

E eu te seguirei senhor, meu dono
Meu esposo, meu irmão, meu doce senhor Jesus.

Fraternidade O Caminho – Alma esponsal

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