(Por Mariana Neves)
“Nisto chegaram os discípulos e ficaram admirados ao ver Jesus
conversando com uma mulher...” (Jo 4, 27)
Boa noite, meus queridos!
Retomamos o nosso estudo sobre a carta apostólica dedicada a vocação e
dignidade da mulher, a Mulieris
Dignitatem.
Chegamos hoje na quarta
parte e esse capítulo vem nos falar sobre a importância que Jesus deu para a
mulher no Evangelho. “A redenção do
homem, ali anunciada, aqui se torna realidade na pessoa e na missão de Jesus
Cristo, nas quais reconhecemos também aquilo que a realidade da redenção
significa para a dignidade e a vocação da mulher” (MD). Podemos observar
que muitas mulheres surgem ao longo do Evangelho, e o encontro com cada uma
dessas mulheres é a confirmação da “novidade de vida”.
As mulheres que são
citadas no Evangelho, são mulheres de idade e condições bem diversificadas. São
mulheres atingidas pela doença ou por sofrimentos físicos, como: a mulher que
era encurvada (cf. Lc 13, 11), a sogra de Simão que estava acamada e com febre
(cf. Mc 1, 30), a hemorroíssa (cf. Mc 5, 25-34) e muitas outras. Muitas dessas
mulheres que Jesus encontrava e que recebiam deles muitas graças, acompanhavam
Jesus e os apóstolos, anunciando o Reino de Deus (cf. Lc 8, 1-13).
Em algumas situações para
ilustrar a verdade sobre o Reino de Deus, Jesus usa a figura das mulheres nas
parábolas, como a que vimos no Evangelho de ontem, que falava sobre o fermento
(cf. Mt 13, 33). Diferente do que acontecia no seu tempo, Jesus não tratava as
mulheres com discriminação. Pelo contrário, em seus ensinamentos sempre exprimem
o respeito e a honra devidos à mulher. É essa forma de tratar as mulheres e
falar sobre elas constitui uma clara “novidade” em relação aos costumes da
época, se tornando mais evidente em relação às mulheres que eram apontadas com
desprezo como pecadoras, pecadoras públicas e adúlteras. Aqui temos o exemplo
da Samaritana (cf. Jo 4, 7-27), a mulher pega em adultério (cf. Jo 8, 3-11) e
da pecadora que perfuma os pés de Jesus (cf. Lc 7, 37-47).
Com esses episódios
podemos afirmar que Cristo é aquele que “sabe o que há no homem”, conhece a
dignidade e o valor aos olhos de Deus. Cristo é a confirmação deste valor,
porque tudo o que diz e faz se cumpre no mistério da redenção. Cada mulher
herda do princípio a dignidade de pessoa precisamente como mulher.
Uma parte que eu achei
muito interessante nesta carta é a parte em que São João Paulo II comenta sobre
o episódio da mulher surpreendida em adultério (cf. Jo 8, 3-11). Quando Jesus
fala para a mulher “vai e não tornas a
pecar” é como se Ele despertasse a consciência do pecado nos homens e
indaga os acusadores da seguinte forma: “esta
mulher, com todo o seu pecado, não é talvez também, antes de tudo, uma
confirmação das vossas transgressões, da vossa injustiça masculina, dos vossos abusos?
”.
Esse questionamento serve
para todas as épocas da humanidade. “Muitas
vezes a mulher é deixada só, exposta diante da opinião pública com o ‘seu
pecado’ enquanto por detrás deste ‘seu’ pecado se esconde um homem como
pecador, culpado pelo ‘pecado do outro’, antes, corresponsável do mesmo”
(MD). E muitas vezes, como na passagem da mulher pega em adultério, esse homem
passa a ser o principal acusador dessa mulher, se esquecendo do próprio pecado.
E aqui podemos dar um exemplo bem próximo da nossa realidade em que a mulher
paga sozinha pelo pecado: as mães solteiras. Nesse contexto, o pai por não
querer assumir a criança, acaba abandonado a mulher sozinha ao invés de assumir
as suas responsabilidades. Muitas vezes, por sofrer pressões até mesmo do homem
culpado, essas mulheres acabam abortando essas crianças. Mas, mesmo a sociedade
querendo anular o peso deste pecado (o aborto), normalmente a consciência da
mulher não consegue esquecer que tirou a vida do próprio filho porque há nela a
disponibilidade em acolher a vida, que faz parte dela desde o “princípio”.
Tanto homem quanto a
mulher foram confiados um ao outro como pessoas feitas à imagem e semelhança de
Deus, e nesta confiança consiste a medida do amor esponsal (dom sincero de se
doar). Quando no Sermão da Montanha, Jesus diz: “todo aquele que lançar olhar de cobiça para uma mulher, já adulterou
com ela em seu coração” (Mt 5, 28), ele mostra ao homem a sua
responsabilidade em relação à mulher: por sua dignidade, por sua maternidade,
por sua vocação. Porém, ele se refere também à mulher. Cristo fazia de tudo
para que as mulheres reconhecessem através dos seus ensinamentos a
“subjetividade e dignidade que lhe são próprias”. Portanto, o homem deve olhar
para dentro de si e ver se aquela mulher que lhe é confiada como irmã, como
esposa, não se tornou objeto de adultério no seu coração, deve observar se essa
mulher não tornou para ele um objeto de prazer, de exploração.
Por causa da forma que
Cristo agia com as mulheres, elas reconheciam a si mesmas na verdade que ele
ensinava e fazia. Elas sentem-se libertadas por esta verdade e amadas de amor
eterno, por um amor que encontra expressão no próprio Cristo. Jesus começa a
falar com as mulheres sobre questões que eram discutidas apenas com os homens,
como é o caso da Samaritana em que Jesus conversa com ela sobre os mistérios
mais profundos de Deus. Por isso, essa mulher, antes vista como pecadora, se
torna discípula de Cristo (cf. Jo 4, 24). Temos como exemplo também as irmãs de
Lázaro, Maria e Marta.
As mulheres com que
Cristo falava sobre as coisas de Deus davam respostas de verdadeira fé, algo
marcadamente feminina e que Jesus admirava. É são esses exemplos de fé viva,
permeados de amor, que Ele propõe como exemplo para nós. Um dos destaques desse
exemplo de fé é aos pés da cruz. Dos apóstolos de Cristo, somente João
permaneceu. As mulheres, ao contrário, eram muitas. Permaneceu ali Nossa
Senhora, Maria, a mulher de Cléofas, e Maria Madalena. Ou seja, as mulheres
demonstraram ser mais fortes que os apóstolos, pois aquelas quem amam muito
conseguem vencer o medo.
Desde o inicio da missão
de Cristo, a mulher demonstra uma sensibilidade especial que é uma
característica de sua feminilidade, e isso é confirmado do mistério pascal, não
só no momento da crucificação, mas também no momento da ressurreição. São as
mulheres que vão ao encontro da sepultura de Jesus. São elas que a encontram
vazia. São essas mulheres que ouvem do anjo que Jesus ressuscitou, são elas as
primeiras a serem chamadas a anunciarem esta verdade aos apóstolos. Foi Maria
Madalena que encontrou Cristo ressuscitado. Foi a primeira a dar testemunho
diante dos apóstolos. E aqui podemos compreender que Jesus também pôde confiar
às mulheres as verdades divinas da mesma maneira que fez aos homens.
E nisso consiste a
verdade sobre a igualdade dos dois. Mulher e homem, criados à imagem e
semelhança de Deus, ambos são em igual medida susceptíveis de receber a dádiva
da verdade divina e do amor no Espírito Santo. “Vós sois um em Cristo Jesus” (Gl 3, 28).

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