Na crise do compromisso comunitário

(Por Géssica Casimiro)

 Irmãos e irmãs em Cristo, boa tarde!
A primeira lei de todo evangelizador é ter e guardar em seu coração as pessoas que deseja evangelizar. Em verdade só evangeliza quando, quem e a quem se ama. Amar significa olhar e ver o outro e a realidade com o olhar simples, puro, amoroso e limpo da criança, do discípulo. O cristão antes de ser missionário é e deve ser discípulo, isto é, alguém que ao missionar o fazer como quem ama, deseja e precisa mais aprender do que ensinar, mais obedecer do que mandar, mais amar do que ser amado.
Quando evangelizamos devemos também procurar enfrentar os diferentes desafios que nos podem ser apresentados. Reconhecemos que, numa cultura em que cada um pretende ser portador duma verdade subjetiva própria, torna-se difícil que os cidadãos queiram inserir-se num projeto comum que vai além dos benefícios e desejos pessoais. É necessário reconhecer que, se uma parte do nosso povo batizado não sente a sua pertença à Igreja, isso se deve também à existência de estruturas com clima pouco acolhedor em algumas das nossas paróquias ou comunidades, ou à atitude burocrática com que se dá resposta aos problemas, simples ou complexos, das vidas dos nossos povos.
O individualismo favorece um estilo de vida que debilita o desenvolvimento e estabilidade dos vínculos familiares. A ação pastoral deve mostrar ainda melhor que a relação com o nosso Pai, exige e incentiva uma comunhão que cura, promove e fortalece os vínculos interpessoais. Torna-se necessária uma evangelização que ilumine os novos modos de se relacionar com Deus, com os outros e com o ambiente, e que suscite os valores fundamentais.
Hoje se desenvolve um relativismo prático, ou seja, age-se como se Deus não existisse. Até aqueles que aparentemente dispõem de sólidas convicções doutrinais e espirituais acabam que por muitas vezes, caírem num estilo de vida que os leva a agarrar-se em seguranças económicas ou a espaços de poder e de glória humana que se buscam por qualquer meio, em vez de dar a vida pelos outros na missão.
Uma das tentações mais sérias é a sensação de derrota que nos transforma em pessimistas. Quem começa sem confiança, perdeu de antemão metade da batalha e enterra os seus talentos. Embora com a dolorosa consciência das próprias fraquezas, há que seguir em frente, sem se dar por vencido, e recordar o que disse o Senhor a São Paulo: “Basta-te a minha graça, porque a força manifesta-se na fraqueza” (2 Cor 12, 9). No deserto, existe, sobretudo a necessidade de pessoas de fé que, com suas próprias vidas, indiquem o caminho para a Terra Prometida, mantendo assim viva a esperança. Em todo o caso, lá somos chamados a dar de beber aos outros. Às vezes esse “dá de beber aos outros” transforma-se numa pesada cruz, mas foi precisamente na Cruz que o Senhor, trespassado, nos entregou como fonte de água viva.
A verdadeira fé no Filho de Deus feito carne é inseparável do dom de si mesmo, da pertença à comunidade, do serviço, da reconciliação com a carne dos outros. Na sua encarnação, o Filho de Deus convidou-nos à revolução da ternura. O Evangelho convida-nos sempre a abraçar o risco do encontro com o rosto do outro, com a sua presença física que interpela, com os seus sofrimentos e suas reivindicações, com a sua alegria contagiosa permanecendo lado a lado.
Mais do que o ateísmo, o desafio que hoje nos é apresentado, é responder adequadamente à sede de Deus de muitas pessoas, para que não tenham de ir apagá-la com propostas alienantes ou com um Jesus Cristo sem carne e sem compromisso com o outro.
Irmãos, toda crise encerra e desperta, também, um espirito de busca por um mundo desconhecido que está a nossa espera, que possamos ter sempre em nós esse anseio por uma vida nova que está por desabrochar. Somos nascidos e gerados como filhos de Deus, cristãos e filhos da Igreja em nome do Pai e do Filho e do Espirito Santo. Por isso, o cristão mesmo que viva sozinho jamais deixará de ser comunitário.
Santo dia a todos, Deus nos abençoe.


Maria, Mãe da Igreja, ajude-nos a dizer o nosso sim.
Dai-nos a audácia de buscar novos caminhos para que chegue a
todos o dom da beleza que não se apaga.
Virgem da escuta e da contemplação, interceda pela nossa Igreja,
para que nunca se feche nem se detenha na sua paixão por instaurar o Reino.
Estrela da nova evangelização ajude-nos a resplandecer com o
testemunho da comunhão, do serviço, da fé ardente e generosa,
da justiça e do amor aos pobres, para que a alegria do Evangelho chegue até aos confins da terra e nenhuma periferia fique privada da sua luz.
Mãe do Evangelho vivo, manancial de alegria para os pequeninos,

rogue por nós. Amém.

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