E aí, meus queridos
amigos. Tudo bem como vocês? Espero que sim. O intuito do texto de hoje é ser
algo além da formação. É ser também uma partilha. Nesse instante, o desejo que
brota de Minh ‘alma é abrir meu coração e testemunhar, com fé, as ações de Deus
em minha vida. Adianto, de antemão, que o texto não será fácil de escrever. Mas
espero que o Espírito de Deus conduza da forma que lhe aprouver e que seja
aquilo que Deus quer.
Vivemos num século onde
as maiores enfermidades residem na alma. É comum vermos os consultórios
psiquiátricos cheios, contrastando, muitas vezes, com nossas Igrejas vazias. A
tónica do mundo contemporâneo são as desordens mentais. As idas à psicólogos e
terapeutas já fazem parte do cotidiano. O uso de medicamentos como
ansiolíticos, anti-depressivos e medicamentos indutores do sono é uma realidade
cada vez mais constante em nossos dias. À exemplo disso, basta olharmos como a
prescrição de medicamentos dessas classes cresceu de modo vertiginoso. O mal-estar
mental espalha-se por todos os cantos, inclusive dentro de nossas Igrejas. Na
mídia, temos notado como é cada vez mais comum lidarmos com sacerdotes de nossa
Igreja, fundada por Cristo, que assumem de maneira pública doenças como a
depressão, transtorno de ansiedade generalizada e Síndrome do Pânico.
Recentemente, a Internet comentou de maneira fervorosa quando o padre Fábio de
Melo assumiu que estava sofrendo do Transtorno da Síndrome do Pânico. É
engraçado (quiçá, até mesmo cômico) observar os comentários que surgiram à
respeito dessa postura do padre, como dizendo que ele não havia motivos para
ter essa doença ou que isso não era nada.
Além disso, tempos atrás
lidamos com a depressão assumida pelo padre Marcelo Rossi. Seu sofrimento
diante da enfermidade mental é retrato em suas entrevistas e livros. O
sacerdote que outrora era conhecido como um padre alegre por causa de suas
músicas e missas festivas, já não possuía a alegria no seu coração. Nesse ponto
é interessante notar como às vezes não damos a importância necessária para a
saúde mental. O padre Marcelo Rossi dizia que achava que depressão era
frescura, antes de ser diagnosticado com transtorno de depressão
A verdade é que os
transtornos relacionados à saúde mental afetam à todos, inclusive os jovens e
aqueles que estão dentro de nossas Igrejas. Não estamos imunes à esse tipo de
enfermidade. Muito pelo contrário, estamos sujeitos à ser acometido por ela. A
depressão, segundos estudos recentes, estima-se que cerca de 5% da população
mundial, de acordo com dados da Organização Mundial da Saúde (OMS). De maneira
contrastante, o Brasil conhecido mundialmente por ser o país do carnaval e da
alegria, é também o que apresenta maior taxa de pessoas com depressão em sua população,
comparado com países da América Latina. Quase 6% da população brasileira sofre
de depressão, segundo dados da OMS, o que representa cerca de 11,5 milhões de
brasileiros. Em nível mundial, ocupamos o terceiro lugar, o que é alarmante. E a verdade é que eu faço a parte dessa
estatística. A verdade é que eu tenho lutado, diariamente, para que possa
superar essa adversidade. Nesse aspecto, confio plenamente no que diz o Senhor
em Filipenses 4, verso 13: “Tudo posso
naquele que me fortalece”. Sei que o Senhor está comigo, por onde quer que
eu ande (Josué 1, 9; Isaías 41, 10; Mateus 28, 20) e sei também que a vitória é
certa (João 16, 33).
Minha história com a
depressão começou em meados de 2015 quando fui diagnosticado com depressão. No
entanto, relutei em aceitar que estava acometido por essa enfermidade. Como
neurocientista que sou e como pessoa que trabalha com depressão, sabia muito
bem do que se tratava, mas não enxergava que precisava de tratamento, uma vez
que não identificava os sintomas em mim mesmo. Porém, a situação foi se
agravando mais e mais e no final de 2015 percebi que, de fato, precisava de
tratamento. No início de 2016 a situação se agravou e se tornou insuportável.
Os sintomas ficaram cada vez mais evidentes e a necessidade de tratamento era
visível. Porém, a dificuldade de procurar ajuda médica especializada fizeram
com que eu protelasse cada vez mais o tratamento. Fui me afastando de tudo e de
todos pouco a pouco. Me afastei daquilo que era o meu sustento: a Igreja.
Diante dos sintomas que tinha, comecei a deixar tudo de lado e fui me isolando
cada vez mais e me aprofundado na depressão. Não tinha mais condições de ir à
missa, como estava habituado a ir. Não frequentava mais as atividades
pastorais, não ia mais em nada.
Tinha insônia. Não dormia
por vários dias. A noite era meu pior momento. O tempo não passava. Meus
pensamentos chegavam a me sufocar. Não sentia sono e no outro dia não estava
cansado. Emagreci, deixei de comer. Passava dias sem conseguir me levantar da
cama. E não era simplesmente uma tristeza sentimental. Era mais que isso. Era
uma força que me deixava prostrado. Era uma força que me deixava cansado. Não
tinha fome, não tinha sede, não tinha nada. A vida simplesmente, de maneira
súbita, perdeu o sentido. Não conseguia me levantar da cama para tomar banho,
para comer, para trabalhar. Não conseguia encontrar sentido. Nesses momentos,
me questionava à Deus perguntando o motivo, a razão para isso. Não percebia que
até nesse momento Deus cuidava de mim, afinal de contas, Ele cuida de nós (1
Pedro 5,7). Minha vida, que outrora era colorida e viva, havia se tornado preto
e branco, sem vida, sem ânimo. Sentia fortes dores de cabeça, um cansaço físico
e emocional gigantesco e uma imensa vontade de desistir. O sentimento de
inutilidade, de vazio, de uma tristeza profunda que chegava a doer e a rasgar a
alma me corroíam. Era um tempo obscuro, frio, vazio.
Não vou lhe dizer que foi
tudo mágico e tudo sumiu da noite para o dia. Não vou mentir dizendo que foi
fácil passar por tudo isso. Não vou enganar dizendo que Deus agiu e mudou minha
vida instantaneamente. Não! Deus tem uma maneira pedagógica, catequética e
linda de agir na vida de algumas pessoas. Ele é o Senhor do tempo e da razão e
seus planos são perfeitos (Jeremias 29, 11; Salmos 23). O agir de Deus é
processual. Como diz o livro de Eclesiastes no capítulo 3 “Para tudo há um tempo, para cada coisa há um momento debaixo dos céus”.
Inclusive, há o tempo de sarar, conforme explícito no versículo 3 “tempo para matar, e tempo para sarar; tempo
para demolir, e tempo para construir”. Há um tempo para tudo, inclusive
para curar. E o tempo de curar também é providenciado por Deus, que tudo sabe,
e sabe a hora certa de curar seu coração.
A depressão roubou de mim
a alegria, mas jamais roubou-me a fé. E aquilo que foi roubado pela depressão
foi restituído pelo Senhor, porque Ele mesmo prometeu restituir em dobro
(Sacarias 9, 12). Sempre acreditei que havia um propósito para o momento que
enfrentava. Deus jamais desampara um filho seu (Deuteronômio 31, 6-8) e tinha
convicção que Ele jamais me desampararia. Enfrentar a depressão era necessário
e a vontade de Deus. Passar pela noite escura, tal como afirma Santa Teresa
D’Ávila é necessário para fortificar nossa fé. Passar pelo vale, pelo deserto é
o momento no qual Deus mexe conosco, momento no qual Ele muda nossas vidas. É
necessário e providencial. E ainda que eu passe pelo vale, não temerei, pois, o
Senhor está comigo (Salmos 23, 1).
E Deus foi agindo em
minha vida!
Mas para isso foi preciso
assumir que tinha uma enfermidade. Foi necessário deixar de lado meu
conhecimento teórico e científico e passar a enfrentar o problema de frente.
Muitas pessoas dentro da Igreja me falavam que eu não estava com depressão.
Que, na verdade, era falta de oração. Cansei de escutar que era drama, que isso
não existia para aqueles que confiavam em Deus. Cansei de ouvir frases do tipo:
“Ah, isso é só uma fase” ou “Católico não enfrenta isso, não”. Diversas pessoas
me recomendavam mais oração e joelho no chão para enfrentar a depressão.
Certamente que isso ajuda e muito. Mas era necessário mais que isso. E
acredite: frases tal como eu ouvi definitivamente não ajudavam! CANSEI de usar
uma máscara e fingir que estava tudo bem. Cansei de tentar socializar sendo que
aquilo me machucava, sabendo que dentro de mim estava um caos. Mas foi quando
eu assumi que precisava de ajuda, que eu encarei a doença de frente que pude
melhorar. Foi necessário dizer ao Senhor que precisava da cura, tal como aquele
cego que gritava à beira do caminho. Quando ele se aproximou de Jesus, o Mestre
perguntou: “Que queres que eu te faça? ”. Por que Jesus pergunta tais coisas
mesmo sabendo que aquele homem era cego e o que ele mais queria era a cura de
sua visão? Porque é necessário que expressemos isso. É necessário falar. E mais
que isso: em muitos casos é necessário gritar, tal como aquele cego gritava. E
quando as pessoas o repreendiam, ele gritava mais ainda: “Jesus, filho de Davi, tem misericórdia de mim” (Marcos 10, 46-52).
Quando eu gritei à Deus, Ele me socorreu (Salmos 18, 6). Fo necessário gritar,
rezar e confiar para que minhas preces pudessem chegar aos céus (Salmos 87).
Através da graça e da
providência de Deus, pude me tratar com um psiquiatra piedoso e temente à Deus,
católico e muito atencioso. Além disso, durante um longo tempo foi necessário
ser acompanhado por uma psicóloga católica e muito espiritual que me ajudou
grandiosamente. O tratamento necessitou ainda de uma série de outros
profissionais, como nutricionista e terapeuta. Como não tinha dinheiro para
pagar o tratamento, caro e não coberto pelo Sistema público de saúde, Deus foi
movendo e agindo, sendo que consegui realizar todo o tratamento sem pagar um
centavo. Obviamente, foi necessário utilizar medicamentos. E eu tomei vários e
MUITOS. Foi uma época difícil, muito complicada. Quando tive noção da
quantidade de medicamentos que estava tomando, me assustei. Eram diversos.
Porém, fui vendo Deus me
curando, com paciência e amor, com carinho e cuidado. A partir do momento em
que assumi que necessitava de cura, que gritei ao Senhor e Ele me ouviu, quando
Ele teve misericórdia de mim, minha vida se transformou. Passar pelo deserto,
passar pela depressão me fez uma pessoa melhor, mais sensível, mais humana e
mais fiel à Deus.
Não tinha como não
lembrar-me da história de Jó e das palavras do Papa Francisco. O Papa dizia
numa de suas homilias: “A desolação espiritual é uma coisa que acontece com
todos nós: pode ser mais forte ou mais fraca… mas é uma condição da alma
obscura, sem esperança, desconfiada, sem vontade de viver, que não vê a luz no
fim do túnel, que tem agitação no coração e nas ideias”. Mas também, “a
desolação espiritual nos faz sentir como se nossa alma fosse ‘achatada’: quando
não consegue, não quer viver: ‘A morte é melhor!’”, acrescentou o Pontífice. Na
mesma homilia, ele disse ainda: Isto foi o que aconteceu com Jó, “melhor morrer
do que viver assim”. “E nós devemos entender quando nosso espírito está neste
estado de tristeza geral, quando ficamos quase sem respiro. Acontece com todos
nós e temos que compreender o que se passa em nosso coração”, aconselhou.
O Papa recomendou então
três atitudes: “Em primeiro lugar, reconhecer em nós os momentos de desolação
espiritual, quando estamos no escuro, sem esperança, e nos perguntar por quê.
Em segundo lugar, rezar ao Senhor, como na liturgia de hoje, com este Salmo 87
que nos ensina a rezar, no momento de escuridão”, prosseguiu o Papa.
“E em terceiro lugar,
quando me aproximo de uma pessoa que sofre, seja por doenças, seja por qualquer
sofrimento, mas que está na desolação completa, silêncio; mas silêncio com
tanto amor, proximidade, ternura. E não fazer discursos que, depois, não ajudam
e, também, lhe fazer mal”. (Homilia do Papa Francisco do dia 28 de setembro de
2016).
Irmãos, foi necessário
passar pelo vale pois foi quando Deus falou comigo! No silêncio do deserto foi
que eu ouvi mais do que nunca a Sua doce voz.
Hoje em dia o Senhor me
chama novamente para a missão. Ele tem restaurado os meus sonhos, tem levantado
novos projetos, tem me abraçado com coisas maravilhosas que eu nunca sequer
havia imaginado. Ele tem me feito experimentar o céu na Terra. Recentemente, o
padre Marcelo Rossi deu uma entrevista no qual afirmou: “"A depressão pra
mim: foi um período maravilhoso" (Fonte: Gente - iG @ http://gente.ig.com.br/colunas/2017-10-12/padre-marcelo-rossi.html).
Tenho que concordar. Embora sofrível, dolorosa, algo que queima e machuca o
peito, é o período maravilhoso.
Jó, em seu sofrimento,
foi paciente e nunca deixou de acreditar. Jó sofreu, mas obteve a salvação. Ele
teve esperança e foi justificado. Portanto, renove a esperança em seu coração.
Na homilia do dia 27 de novembro de 2014, o Papa Francisco afirma: “Quando
pensamos no fim, com todos os nossos pecados, com toda a nossa história,
pensamos no banquete que gratuitamente nos será dado e levantamos a cabeça.
Nada de depressão: esperança! ”.
Portanto, nada de
depressão. ESPERANÇA!
Hoje em dia, a depressão
ainda insiste em bater em minha porta. Mas Deus é meu vigia, é Deus quem me
guarda (Salmos 121).
Quando olho para trás e
vejo tudo que passou e percebo, nos dias de hoje, tudo aquilo que tenho e Deus
me deu, sou extremamente grato. Quando percebo que meus amigos me suportam, me
ajudam, louvo a Deus. Quando percebo o amor existente em minha família e o
cuidado, agradeço. Mas também agradeço à depressão por me fazer melhor, embora
de forma dolorosa.
Em tudo dai graças (1
Tessalonicenses 5, 18). Portanto, eu dou graças a Deus pelo sofrimento que
passei. Além do mais, dou graças à Deus por Ele ter me salvado na situação mais
funda da depressão. Mas isso é um outro assunto! Fica para um próximo texto.
Desejo que você se
fortaleça ainda mais no Senhor. E conte conosco, com nossas orações. Confie no
Senhor, espera n’Ele pois Ele tudo fará! (Salmos 37, 3).
(Wesley
Fernandes Fonseca – Minions Católicos)


Comentários
Postar um comentário
Fale conosco através do email: minionscatolicos@gmail.com