“Evitemos
que as preocupações desta vida nos envolvam na ansiedade e no orgulho, de tal
modo que não procuremos, com todo o afeto do coração, conformar-nos a nosso
Redentor na perfeita imitação de seus exemplos”[i]
Para
educar a afetividade é necessário primeiramente conhecer as emoções e os
sentimentos. Isso não é óbvio? Sim, mas infelizmente as coisas mais básicas
parecem ser as que menos damos atenção. A todo o momento somos movidos pelos
nossos sentimentos, mas não temos consciência disso. Somos dominados por
emoções que nos fazem agir impulsivamente e de maneira contraditória, ferindo
pessoas e a nós mesmos. Não sabemos reconhecer os sentimentos alheios, nem capazes
de acolher as emoções das pessoas com quem nos relacionamos.
Se
não queremos continuar vivendo como “analfabetos emocionais”, é preciso
aprender a dar nome às emoções para ter consciência delas. É pela escada da afetividade
bem educada que os sentimentos e emoções podem ser conduzidos ao andar de cima.
Conhecer os sentimentos e emoções, saber os seus nomes é um pressuposto
necessário para conhecer a si mesmo e aos outros.
Adquirindo
esse conhecimento, tendo consciência de usar, que vamos compreender que a
maioria dos nossos “fatos psicológicos”[ii] são grafados em nossa psique conforme a
entonação das emoções. Ou seja, o quanto nós sentimos e vamos valorizar aquele
sentimento vai “marcar” o quanto e como ele será “guardado na memória”[iii]
e será “revivido” nas nossas lembranças !
Em
si mesmos as emoções e os sentimentos não são nem bons nem maus. A alegria,
enquanto sentimento, não é nem boa nem má. A tristeza não é, em si mesma, boa
ou má. É o que fazemos com tais sentimentos que determinam se eles são bons ou
maus. Se eu me alegro com o sofrimento do outro, experimento uma alegria
perversa. Se eu fico triste e com enfurecido, quando vejo uma injustiça
cometida contra uma pessoa vulnerável, demonstro uma sadia reação emocional que
está fundada em uma boa formação moral.
Tal
formação moral e atitude é realçada pelo magistério da Igreja. No Compêndio da
Doutrina Social Católica está escrito: “Em face das graves formas de exploração
e de injustiça social «torna-se sempre mais ampla e sentida a necessidade de
uma radical renovação pessoal e social, capaz de assegurar justiça,
solidariedade, honestidade, transparência”[iv]
E
para educar a afetividade é preciso integrar os sentimentos e emoções na
prática do bem. “As emoções e os sentimentos podem ser assumidos em virtudes ou
pervertidos em vícios”[v]
A
afetividade educada é que me permite conhecer
e aceitar que tenha sentimentos de
raiva, ódio, cólera, tristeza. Ela conduz tais emoções para o andar de cima (a
vida do espírito, a consciência moral, a razão e a vontade). É nesse andar que
se dá o discernimento das motivações dos sentimentos e no qual eles podem ser integrados na prática do bem[vi].
Por
fim, para educar a afetividade é necessário exprimir de maneira consciente e construtiva os sentimentos e as
emoções. É a afetividade educada que conduz o que foi elaborado e integrado no
andar de cima para o andar de baixo. Posso exprimir sentimentos de raiva ou de
alegria, agora sim, de maneira moral, se estes foram integrados na virtude. E
colocados a Disposição do Senhor![vii]
Foi
uma afetividade educada que permitiu que Jesus exprimisse toda a sua raiva e
cólera de maneira justa quando ele expulsou os vendilhões do templo. Ele
exprimiu sua indignação quando enfrentou a hipocrisia dos doutores da lei. Foi
também uma afetividade bem educada que fez com que a sua misericórdia se
exprimisse em gestos afetivos de compaixão, de tristeza e de alegria. “Em
Cristo, os sentimentos humanos podem receber sua perfeição na caridade e na
bem-aventurança divina”[viii]
.
A
plena realização da pessoa humana não consiste somente em que ela seja movida
ao Reino de Deus unicamente por sua vontade, mas também por seus sentimentos e
emoções. Educar a afetividade consiste em alcançar de maneira prática o ideal
que é expresso no salmo 84,3: “Meu coração e minha carne exultam pelo Deus vivo”.
É
certamente longa e dura, a estrada a percorrer; numerosos e ingentes são os
esforços a cumprir para levar a cabo uma tal renovação![ix]
E que iniciemos essa revolução com o
afeto maior – A CARIDADE DIVINA:
“..de tal modo a chama da caridade divina inflamou o coração dos
homens e o inebriamento do amor de Deus penetrou os seus sentidos que, cheios
de afeto, começaram a desejar ver a Deus com os olhos do corpo”[x].
+
Julio Endi Akamine SAC Arcebispo metropolitano de Sorocaba
Derlei
Andriotta Minions Católicos
[i] (São Leão Magno) Sermões da
Paixão do Senhor
[ii] (Bergson) Aulas de Psicologia e
Metafísica
[iii] (Bergson) Aulas de Psicologia e
Metafísica
[iv] (São João Paulo II) Compêndio da
Doutrina Social Católica, n 577
[v] (São João Paulo II) Catecismo da
Igreja Católica, 1768.
[vi] (Santa Catarina de Senna) Cartas
Completas
[vii] (Santo Inácio de Loyola)
Exercícios Espirituais 234, Santo Inácio nos auxilia a devolver com afeto tudo
o que recebemos de Deus! A saber todas as nossas coisas e a nós mesmos que
oferecemos com muito afeto
[viii] (São João Paulo
II) Catecismo da Igreja Católica, 1769.
[ix] (São João Paulo II) Compêndio da
Doutrina Social Católica, n 577
[x] (São Pedro Crisólogo) Sermão 147

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