Como eu tentei me matar e como descobri Jesus no fim da vida para que pudesse me dar vida, e vida plena, vida em abundância

Olá, meus queridos amigos? Tudo bem com vocês? Como estão as coisas por aí? Que a graça De Deus e a constância do Espírito esteja nos corações de vocês. Que Deus seja o guia, que Ele seja o autor desse texto. Que flua em mim o Espírito Santo, tal como um rio de água viva, tal como torrente que jorra do templo do Senhor (Ezequiel 47) e que gere em mim frutos, frutos de vida. Que meu coração seja manancial de águas vivas (Zacarias 14, 11; João 7, 38-39) por onde o Espírito que me conduza onde quer que Deus aprouver.
Os últimos textos não têm sido fáceis de escrever. Escrever sobre as suas próprias dores, marcas, feridas que residem na alma nunca é fácil. Abrir o coração e contar as obras maravilhosas de Deus é fantástico, mas também é um desafio. Obviamente, quanto mais se proclama as coisas do alto (Colossenses 3, 1) mais o inferno estremece, mais enfurece e mais tenta desestabilizar a obra do Altíssimo. Mas aquele que está fundamentado na Verdade e na Vida (João 14, 6) não há de temer. Por mais que contar as obras do Senhor sejam bênçãos e também a razão do meu viver, isso me faz relembrar do período de trevas em minha vida. Não há como não recordar com pesar desse momento. Mas ainda que eu ande pelo vale da morte, nada temerei (Salmo 23) porque eu sei que o Senhor está comigo. E, nesse instante, na qual o Senhor está comigo, sei que Ele exorta para que eu conte às nações, com voz de profeta, com voz de trombeta, as ações do Altíssimo em minha vida. Eis que o Altíssimo fez em mim maravilhas (Lucas 1, 49).
No texto passado havia falado sobre o suicídio (você pode conferir esse texto através desse link: https://goo.gl/cwR9U6
Recentemente também contei como sofri a depressão. Como a depressão havia roubado de mim a alegria e a vontade de viver. Relatei os sintomas, as dores, as insônias, os medos, as inseguranças. Já detalhei a desesperança, a anedonia, o pessimismo que invadiram a minha alma durante os episódios depressivos. E você pode reler, se desejar, esse texto através desse link: https://goo.gl/8fHygi
Porém, havia deixado claro que durante a crise depressiva, o pior ainda estava por vir. E, infelizmente, veio. A depressão foi se aprofundando de tal maneira que me levou ao fundo do poço. Havia chegado ao ápice de toda dor emocional que queria ser exteriorizada. A dor emocional talvez seja um dos piores tipos de dor. A dor da alma surge de algum lugar que não vemos a fonte, ecoa fundo, reverbera, perpetua, dilacera, destrói. Na dor da alma não há como colocar um curativo para que cesse, na dor da alma não há como realizar um procedimento cirúrgico, não há a possibilidade de se fazer uma sutura para que pare de doer. Na dor da alma não há remédio eficaz o suficiente que faça com que tudo pare. Na dor da alma, há um aprofundamento abismal do ser, num ponto tão escuro onde percebemos que, naquela hora, não há luz no final do túnel. Naquele instante, com o coração cheio de devaneios, sem racionalidade, a saída talvez seja a morte.
Para parar de doer, só parando de viver. É, infelizmente o que muitos pensam. É infelizmente o pensamento que domina a mente daqueles que sofrem de transtornos psiquiátricos como depressão. É o que passou pela minha cabeça também. A ideação suicida, tal como dito no texto anterior, é a representação mental, através de pensamentos ou cognições da morte, tentando acabar com a sua própria vida.
No momento em que achei que não suportaria a dor, a ideação suicida se fez presente no meu cotidiano. O pensamento da morte não me assustava mais como nas outras vezes. Pelo contrário. Sentia até mesmo uma atração e uma curiosidade sobre como era a morte, sobre como seria o outro lado, tal como afirma Santo Agostino (Reflexão sobre a morte, Santo Agostinho). Eu achava que a morte não seria a arquiinimiga que teríamos que vencer no final da vida, completando a corrida, guardando a fé (2 Timóteo 4, 7). A morte virou algo próximo. Pensar sobre como findaria minha vida se tornou algo corriqueiro, normal. O pensamento sobre a morte era o meu melhor amigo, quando já achava que não tinha ninguém em minha vida. Pensar sobre como poderia morrer se tornou algo que ocupava os meus dias. Eu, que já não tinha vontade de nada, descobri uma grande vontade: de morrer!
Passava dias, noites acordado pesquisando sobre formas de suicídio. Li centenas de histórias, descobri vários métodos. Me senti encantado por aquilo. Descobri uma história que mexeu comigo. A história de um jovem que suicidou de uma maneira peculiar. Um adolescente de 16 anos, extremamente inteligente e um jovem prodígio da música que em sua carta de suicídio escreveu: “Eu acredito que a cadência e a harmonia certas no momento certo podem despertar qualquer sentimento, inclusive o da felicidade nos momentos mais sombrios’’. O jovem, cujo nome é Vinícius, faz parte de um crescente número de adolescentes que procuram formas de se matar na internet e acabam encontrando incentivo para isso. A forma, denominada como Suicidio.com é prática crescente em países como Japão e Inglaterra. Vinícius já era conhecido na internet. Anunciou que seu suicídio começaria às 11 horas do dia 26 de julho de 2006. E assim o fez. Ele era tido como “extraordinariamente inteligente” e “extraordinariamente sensível”. Havia arquitetado seu plano e fez com que tudo acontecesse. Com a desculpa de que faria um churrasco para impressionar uma menina, pediu para que seus pais saíssem de casa para ficar só. Foi quando tudo começou. Além do mais, pessoas o incentivavam, à distância, através da internet. Havia preparado tudo! Tinha saído horas antes com sua mãe para comprar carnes e demonstrava intensa felicidade e êxtase por estar preparando o churrasco. Ele preparou até os dias posteriores à sua morte para que os pais não pudessem desconfiar. Havia pedido para que os pais comprassem ingressos para um show que aconteceria na semana seguinte. Falava abertamente com os pais sobre planos futuros, com metas a curto, médio e longo prazo. Tudo para encobertar, esconder seus planos. Havia fantasiado uma história de que estava tudo bem, sendo que, na verdade, a morte já estava planejada. A riqueza de detalhes de sua história é estarrecedora. Ele descreve cada passo. E ainda recebia ajuda para que o suicídio fosse perfeito. Confesso que fiquei em chocado, em pânico com a história. Aquilo me causou um misto de sensações indecifráveis. Aquela história me fez pensar em tantas coisas....
Pesquisei fóruns na internet, entrei em contato, através da internet com vários potencias suicidas também. A maioria jovem, de classe média alta, com o coração vazio de amor e cheio de dor. A maioria com ideações suicidas extremamente organizadas, com cartas para os familiares prontas, com tudo planejado. Conversava com pessoas que tinham o plano em mente sobre o suicídio. Conversava com pessoas que tinha definido a data de seu suicídio de uma maneira meticulosa, fria, calculadora e extremamente detalhada. Comecei a me questionar a respeito daquilo. Quando titubeava, parecia que a dor gritava mais alto dentro do meu peito e a única saída que invadia meus pensamentos era que o suicídio era a melhor opção.
Já não me amava, já não tinha razões de viver, já não encontrava sentido para a vida. A vida havia perdido a cor, o brilho...
Encontrei tantos métodos através do submundo do suicídio na internet que me apavorei. Me apavorei devido à facilidade que existe. Percebi que tinha um arsenal de possibilidades em minhas mãos para que eu pudesse dar fim à vida. Isso mexeu demais comigo.
Numa determinada noite deitei-me pensando na morte e me lembrei que esse pensamento não era novidade. A minha primeira tentativa de suicídio se deu quando tinha 15 anos, quando coloquei a faca em meu peito e o máximo que eu consegui foi um corte não muito profundo. Aos 16 anos já havia tentando cortar os pulsos. Porém, agora, com 26 anos, a morte parecia estar mais clara, mais nítida para mim. Já não pensava na morte como pensava anos atrás. Era algo mais concreto, mais palpável, mais real, mais próximo de mim. Naquela noite, tomado de uma sensação de pânico e medo me levantei e, desesperadamente, liguei para o Centro de Valorização da Vida (CVV- 141). Havia conversado tanto através do telefone como também via Skype. Chorava, não consegui falar. A noite quente se tornou fria. Meu corpo tremia, o medo exalava de todos os poros da minha pele. Estava aflito, sozinho, no escuro.
Quando amanheceu o dia e não havia sequer dormido um pouco, estava com dores mais fortes ainda. Com dores na alma, no corpo, na mente. Era uma dor que não podia suportar. Saí de casa sem rumo. Pensei em ligar para um amigo, mas confesso que senti vergonha. Era tido como uma referência mais velha para meus amigos. Todos os meus amigos vinham até mim pedir conselhos. Como poderia passar essa imagem tão fraca e derrotada para meus amigos? Me calei, me escondi. Me refugiei em casa, novamente, e me prostrei ante à tanta dor.
Deitado num colchão da sala, com todas as janelas fechadas, tomado de uma escuridão e uma frieza total, só tinha forças para chorar. Já não aguentava mais tantas dores, tanta vida sem sentido, tanta coisa ainda por viver. Estava cansado, fatigado, exausto. Quando me falavam que tinha muito ainda pra viver, mais me desanimava. Pensar que poderia viver prolongando tanto sofrimento me causava mais angustia ainda.
Naquela noite, havia decidido que não poderia mais viver daquela forma. Após um episódio derradeiro, próximo das 23:20 de uma terça feira, aos prantos, entrei no meu quarto, fui até o guarda-roupa, abri a porta e retirei um frasco de comprimidos que havia conseguido dias antes. Havia lido nos fóruns suicidas também que a associação entre alguns medicamentos potencializaria a ação suicida. Foi o que eu fiz. Ingeri uma altíssima quantidade de medicamentos. Sim, altíssima.

Sentei no chão da minha sala e esperava fazer efeito. Não! Eu não escrevi nenhuma carta, não deixei nenhum recado. Não deixei nenhuma explicação para ninguém. Não havia deixado qualquer bilhete para meus pais ou amigos próximos. Não havia deixado discursos ou recomendações. Eu, prolixo como sou, amante das palavras como sou, não quis escrever nada na hora derradeira. Não coloquei nenhuma música, não vesti uma roupa especial e nem nada do tipo. Não preparei a casa, não deixei chave com alguém para que pudesse me encontrar. Não. NADA! Só queria estar ali, naquele instante, fazendo o que eu queria estar fazendo. Só queria colocar um fim. Só isso. Só morrer. A única coisa que havia preparado era uma corda, caso aquele método não funcionasse rapidamente. Já havia deixado a corda próxima para que pudesse solucionar meus problemas.

Aos poucos, comecei a perceber que já não consegui enxergar de maneira nítida. Meus pensamentos começaram a se perder e se tornaram confusos. Comecei a sentir uma fraqueza no corpo e uma sonolência. Apaguei. Desmaiei e confesso que, à partir daí, não me recordo de muitas coisas.  A única lembrança que tenho em minha mente é de acordar no chão do banheiro, com o corpo todo suado e muito fraco. Havia vômito próximo de mim e meu corpo estava completamente molhado. Não me recordo com clareza de detalhes desse momento, mas o que mais me lembro eram de dois sentimentos no meu peito: o arrependimento de ter tomado tal atitude e fraqueza por ter falhado. Ambos os sentimentos se misturavam e confesso que já não conseguia definir qual era o predominante. Liguei para o serviço de emergência que demorou a atender. Liguei novamente e desliguei logo em seguida. Estava mais preocupado em como contaria e como conseguiria olhar no rosto das pessoas. Estava envergonhado. Chorava copiosamente. Não me lembro do horário, mas percebi que já era de manhã. Após muitas horas passadas no chão daquele banheiro, vomitando muito, decidi que iria ao hospital.
Ao chegar no hospital, após o médico realizar todos os procedimentos, não conseguia me olhar e nem olhar as pessoas ao meu redor. Tinha vergonha, tinha medo, tinha raiva. O médico disse que a combinação de medicamentos e a carga elevada dos mesmos provocou uma intoxicação em mim. O alto teor ácido de um dos medicamentos fez com que meu estômago e meu fígado respondessem rejeitando o medicamento e expulsando o conteúdo que estava em meu estômago através do vômito. Disse ele que, de acordo com a quantidade de medicamento ingerida, eu estar naquele dia no hospital, sem ter sido levado por uma ambulância, de estar com vida diante dele, era um MILAGRE!
Um milagre
A única coisa que eu pensei era: Graças à Deus!
Não entendo até hoje os caminhos que me levaram a tomar essa decisão. Não sei até hoje como consegui chegar ao hospital. Não entendo como a intoxicação agiu fazendo com que eu vomitasse os comprimidos. Não sei como estou escrevendo esse texto hoje.
Mas de uma coisa eu sei: Deus me salvou.
Até quando eu não merecia, até quando eu não queria, até quando eu achava que não tinha mais jeito, até quando eu não acreditava mais, Ele estava comigo. Ele é fiel em cumprir as promessas. Ele mesmo prometeu: “Eis que estou convosco todos os dias até o fim dos tempos” (Mateus 28, 20). Ele mesmo foi quem disse em João 10, 10 que veio para que todos tenham vida e tenham vida em abundância. Ele que morreu por mim (João 3, 16), não quis que eu morresse. A passagem em 1 Tessalonicenses 5, versículo 18 diz: “Em tudo dai graças”. Eu dou graças à Deus por Ele ter me salvado. Ele me mostrou que há um caminho a ser trilhado. Ele me mostrou que há uma vida a ser vivida. Ele me mostrou que há uma luz no fim do túnel (João 8, 12), por mais que não pareça.
Um fato me chamou a atenção naquela noite triste. Quando acordei no banheiro, ao abrir os olhos quando ainda estava deitado, a primeira imagem que eu vi foi o crucifixo que ficava na sala bem em frente ao banheiro. Aquele crucifixo nunca representou tanto para mim. Aquele crucifixo nunca teve tanto sentido. Aquele que morreu e morreu numa cruz (Filipenses 2, 8) por mim e para me salvar, me salvou de novo.
Eu não sinto orgulho dos meus sentimentos contrários à vida, não sinto alegria em relembrar esses episódios. Pelo contrário. Sinto dor. Mas sinto alívio. Por ter passado pelo vale da morte  (Salmos 23, 4) e por até lá o Senhor estar comigo.
Eu não sei pelo o que você passa, não sei das dores que enfrenta, não sei das lutas que você vem travando. Mas sei que o Senhor está contigo e com Ele, tudo pode vencer (Filipenses 4, 13; Marcos 9, 23). Não desista. Deus te aprecia e te ama, Ele troca reinos por ti (Isaías 43, 4). Ele jamais te desemparará, jamais te deixará (Deuteronômio 31, 8). Confie nEle!
A noite tem um fim. A escuridão não durará para sempre. A luz virá. Acredite. O choro pode durar uma noite, mas a alegria vem de manhã (Salmos 30,5).
Sei que a situação pela qual está passando é difícil, pesada, dura. Mas, como diz uma canção popular, veja que a estrada vai além do que se vê. Deus tem planos melhores para sua vida. A vida não termina aqui. A dor não há de vencer. A dor não vai te superar. Você é muito mais forte que isso. A sua força vem do alto. Quem te fortalece é o próprio Criador do Céu e da Terra. Ele vencerá, junto com você, esse inimigo. Não tire sua vida. Sua vida é preciosa aos olhos do Senhor, você vale muito aos olhos dEle. Redescubra o amor que fora perdido, redescubra que esse é o Amor Maior da sua vida. Dê um novo significado à vida. Veja que quando a vida perde completamente o sentido, é que nós temos a capacidade de oferecer à ela um novo significado à tudo e dar um novo sentido, um nosso significado é divino e esplendoroso. Dê um novo significado à sua vida! Você foi feito com fragmentos da eternidade. Viva para o céu!


(Wesley Fernandes Fonseca – Minions Católicos)

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